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 EDITORIAL (ARQUIVO)

Eduardo dos Santos

José Eduardo dos Santos anunciou a intenção de não se recandidatar ao cargo que, importa recordá-lo, ocupa há 22 anos. Graças a esse anúncio, talvez consiga adiar um mais do que provável golpe de estado.

Para além de exercer as funções num país que tem a mais longa guerra civil do continente, Eduardo dos Santos pode «orgulhar-se» de, com o gabonês Omar Bongo (1967), o líbio Moammar Kadhafi (1969), o seichelense France Albert René (1977), o queniano Daniel Arap Moi (1978) e o guineense-equatorial Teodoro Obiang Mbagogo (1979), ser um dos ditadores mais antigos em África.

Seja como for (e em Angola é sempre problemático um raciocínio linear), Eduardo dos Santos está entre a espada (da UNITA) e a parede (dos barões do MPLA). Salva que está, no exterior, a sua salubridade económica e financeira, Eduardo dos Santos enfrente agora a prova de vida... ou de morte. Provavelmente optará por fazer companhia a Nino Vieira, preferindo ser um vilão rico no estrangeiro, do que um um herói morto em Angola.

Se Eduardo dos Santos tivesse legitimidade democrática para estar no cargo, talvez a sucessão fosse natural. Talvez, entre outros, Lopo do Nascimento ou João de Matos não tivessem problemas em entrar na corrida eleitoral. Acontece que ou se tem legitimidade ou não se tem.
Não há meias legitimidades. Não há vitórias parcelares que, por conveniência, se tornam em definitivas... como o fez Eduardo dos Santos.

O presidente de Luanda falhou em todas as frentes, desde logo na que para o MPLA era a mais importante: derrotar Jonas Savimbi. O povo continua na miséria, a economia angolana não existe, o progresso continua a passar ao lado. Em vez de trabalhar (como reiteradamente lhe foi dizendo João de Matos) para os milhões que têm pouco (ou quase nada), Eduardo dos Santos trabalhou para os poucos (onde se inclui) que têm milhões.

É por isso que, cada vez mais, os angolanos manifestam completa e inequívoca aversão à ditadura de Luanda, apelando ao diálogo com os que morreram a lutar contra o colonialismo, a lutar contra os cubanos, a lutar contra a ditadura de Eduardo dos Santos.

João de Matos, apesar de tudo, percebeu que matar os soldados das FALA não resolveria a questão angolana. É que ninguém consegue matar a identidade de um povo.

Eduardo dos Santos estará agora a perceber essa realidade? É possível. Mas é igualmente tarde. Ou foge ou, a todo o momento, os homens a quem forneceu a corda para enforcar Savimbi vão servir-se dela para o pendurar no Futungo de Belas.

29.Ago.2001


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