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Xeque-mate têxtil Não há como uma guerra para trocar favores e esquecer tudo que se tinha como sagrado. Os heróis viram terroristas (o contrário também é verdade), os inimigos saltam a barricada e ficam todos na paz de Deus... até à guerra seguinte. A Comissão Europeia decidiu eliminar direitos aduaneiros e aumentar as quotas de importação de produtos têxteis paquistaneses. Favor com favor se paga. Não sei que favores os paquistaneses fizeram a Portugal, mas porque quem manda é o tio Sam e a ele o Paquistão deu facilidades para aniquilar os afegãos (taliban incluídos, é claro!), lá vamos nós, sobretudo (mas não só) nos têxteis, pagar a factura. E vamos pagá-la tanto na Europa como nos próprios EUA. É que o mercado americano é importante para os nossos têxteis e, certamente, também aí serão dadas facilidades aos amigos paquistaneses. Têxteis produzidos por uma mão de obra explorada até ao tutano e muito mal paga? O que é que isso importa? O importante, diria António Guterres, é a nossa solidariedade para com os amigos norte-americanos, mesmo que muitos deles pensem que Portugal pertence a Espanha. Trabalho infantil e direitos humanos confinados às latrinas dos senhores do poder, são coisas que condenávamos no Paquistão no período anterior a 11 de Setembro. Agora (mudam-se os tempos, mudam-se as vontades) nada disso é importante. Aliás, até o ministro da Economia, Luís Braga da Cruz, um homem habituado a dizer a verdade, aposta agora numa afirmação que ele sabe ser apenas meia verdade. Sobre este caso, admitiu que "pode representar alguma perda para Portugal", informou que o Governo está a avaliar a "eventual perda que possa significar o acordo que a União Europeia estabeleceu com o Paquistão", mas - é claro - esclareceu que o «o assunto está sob controlo». Traduzindo, significa que a abertura do mercado dos têxteis a países terceiros, prevista para 2005 no âmbito do acordo da Organização Mundial do Comércio, foi antecipada para 2001. Quanto ao assunto «estar sob controlo», o ministro da Economia queria dizer que o Governo está pronto a assinar as certidões de óbito. Que importa ao Governo de António Guterres que o Paquistão seja uma ditadura onde, como muito bem denunciou Florival Lança, da Comissão Executiva da CGTP, «além da ausência de direitos sindicais, se verifica a utilização, em larga escala, do trabalho infantil mas também de trabalho forçado e escravo»? Que importa a Braga da Cruz que o Paquistão tenha sido condenado pela Organização Internacional do Trabalho por violação das convenções internacionais? Que importa a Jorge Sampaio que a produção de têxteis e vestuário no Paquistão "assente na ausência de direitos políticos e sindicais dos trabalhadores, no trabalho escravo, no trabalho de milhões de crianças e na discriminação violenta das mulheres"? Que importa aos partidos da Oposição que os têxteis tenham uma posição de destaque na indústria portuguesa, não só ao nível do emprego (300 mil trabalhadores), como do comércio externo, contribuindo com cerca de um quarto para as exportações portuguesas? Que importa aos portugueses que outros aliados dos EUA, casos da Índia e da China, também venham a entrar por aqui dentro? Nada importa. Quem vier a seguir que feche a porta... 25.Out.01 |
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