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 EDITORIAL (ARQUIVO)

Que a paz em Angola chegue em 2002

Algo se passa em Angola. 2002 poderá, mais de facto do que de jure, ser o ano do entendimento, mau grado os extremismos do Governo de Luanda, da UNITA e da comunidade internacional (com especial relevância para Portugal).

Apesar da ignorância que costuma revelar nas questões de Angola, a ONU veio agora a terreiro dizer que «há uma oportunidade» para avançar no processo de paz. Ou seja, o subsecretário-geral das Nações Unidas, Ibrahim Gambari, disse que «há uma janela de oportunidade" de avanço no processo de paz em Angola.

Falando numa reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a guerra civil de 25 anos em Angola, Ibrahim Gambari indicou haver indícios de que o Governo de Luanda e o líder rebelde Jonas Savimbi poderão estar prontos a reatar contactos.

Haja Deus! A ONU (pelo menos desta vez) não deitou os cães ao Mais Velho do Galo do Negro.

«Há de facto uma janela de oportunidade de se avançar no processo de paz em Angola que as Nações Unidas deveriam explorar», defendeu Ibrahim Gambari, dando assim pública relevância ao que largos sectores da sociedade angolana têm dito há já muito, muito tempo.

Aquele alto responsável da ONU adiantou que, durante uma recente visita a Angola, as autoridades governamentais angolanas lhe reiteraram não terem objecções a que as igrejas do país facilitem a realização de contactos com a UNITA através das Nações Unidas.

É claro que se José Eduardo dos Santos tivesse objecções, a ONU meteria o rabo entre as pernas e em vez de falar de uma janela aberta ao diálogo estaria, como tem feito, a dizer cobras e lagartos de Jonas Savimbi.

O Conselho da República de Angola, um órgão consultivo convocado pelo presidente José Eduardo dos Santos, anunciou recentemente que o Governo consentiu em envolver Jonas Savimbi nas negociações de paz.

Consentiu?
Os angolanos sabem, e só não sabe quem para contar até 12 tem de se descalçar (eu sei que são muitos, mesmo que diplomados), que tal como mandou construir um monumento anti-FNLA (que outra coisa se pode chamar ao chamado Monumento do Kifangondo?), José Eduardo dos Santos deseja fazer outro anti-UNITA.

Quem é o Governo de Luanda para «consentir»? Quem tem, ou não, de consentir é o povo angolano. Quem tem, ou não, de consentir são os milhões que têm pouco (ou nada) e não os poucos que têm milhões.

Seja como for, o Governo consentiu... e a ONU disse obrigado senhor.

«Temos informação de que o doutor Savimbi terá manifestado interesse em reatar o diálogo com o Governo em Luanda e há necessidade de autenticar esta fonte", referiu Ibrahim Gambari ao Conselho de Segurança.

Jonas Savimbi sempre teve e manifestou interesse de dialogar. O que aconteceu, e pode voltar a acontecer, é que o Governo de Luanda entende o diálogo como sinónimo de «nós queremos, nós podemos, nós mandamos». Ora, Savimbi não vai nisso. Para o líder da UNITA dialogar é debater, conversar, discutir, encontrar soluções.

Se a ONU não voltar a estar disposta a comer gato por lebre, é possível o diálogo com Jonas Savimbi. Se o diálogo for uma forma de rendição, de aniquilamento, então o melhor é contar com a guerra por muitos mais anos... mesmo que Jonas Savimbi morra entretanto.

O subsecretário-geral da ONU informou que se reuniu com deputados da UNITA que lhe reiteraram o compromisso do movimento pela paz através de um diálogo no âmbito do acordo de paz de 1994 assinado em Lusaca (Zâmbia), que se malogrou em 1998.

No entanto, segundo Ibrahim Gambari, os deputados advertiram que o acordo de Lusaca "não pode ser usado simplesmente como plataforma para obter a rendição da UNITA".

É exactamente isso.

Ibrahim Gambari disse ainda que o Governo de Luanda acredita que "a capacidade militar da UNITA foi quase totalmente destruída e que apenas um milagre a poderá salvar".

Cá para mim, aqui há gato... com o rabo de fora. Porque razão Eduardo dos Santos aceitaria dialogar com um adversário que «tem a capacidade militar quase totalmente destruída»?

Que a paz em Angola chegue em 2002.

23.Dez.01


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