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 EDITORIAL (ARQUIVO)

Drogas, mentiras e Governo

O Governo em exercício em Portugal considerou uma "irresponsabilidade" as declarações do líder do CDS/PP, Paulo Portas, sobre a descriminalização do consumo de droga, publicadas no jornal britânico "The Times".

Num texto intitulado "Polícia portuguesa não prende consumidores de droga", o jornal abordou a nova lei, ouviu o seu autor, o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Vitalino Canas, e ainda o "líder da Oposição de direita", Paulo Portas.

"Haverá aviões cheios de estudantes, dirigindo-se ao Algarve, para fumar marijuana e coisas piores, sabendo que não os colocaremos na cadeia. Prometemos sol, praias e qualquer droga de que se goste", afirmou Paulo Portas na reportagem.

Esta afirmação, considera o Governo de António Guterres, "atenta gravemente contra a imagem e a dignidade de Portugal".

Em comunicado, o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros repudia as afirmações de Portas e afirma que a declaração do presidente do PP "constitui uma manifestação de irresponsabilidade que afecta claramente o bom nome do país".

"Quando, por meros motivos politiqueiros de ordem interna, decide fazer declarações do teor das que se citaram anteriormente, está a aceitar participar activamente num acto jornalístico de desprestígio do país no estrangeiro, com todas as consequências que isso pode ter, nomeadamente no que toca aos fluxos de turistas que demandam o nosso país", acrescenta Vitalino Canas.

Sem mais demoras, Paulo Portas esclareceu: "Disse e mantenho que um país que fala em liberalização do consumo de droga atrai mais consumidores e mais droga, e isso é mais grave quando Portugal é a porta de entrada da União Europeia".

Na minha opinião, Paulo Portas voltou a dizer o que a maioria dos portugueses pensa, e Vitalino Canas voltou a confundir o que se exige a qualquer Governo (a solução para o problema) com o que se dispensa a aqualquer Governo (que seja um problema para a solução).

De uma vez por todas, os governos devem entender que dizer a verdade não afecta o bom nome do país. O que afecta o bom nome do país é exactamente o que o Governo defende - a mentira.

E o tempo das verdades para «inglês ver» já há muito deveria ter desaparecido. Infelizmente, sobretudo quando apostou em substituir ministros em catadupa em vez de alterar políticas, António Guterres aposta em tantas verdades quantas as necessidades exigem.

São umas verdades para uso interno do PS, outras para vender ao eleitorado, outras para os debates parlamentares e, ainda, outras para apresentar em Bruxelas.

Com tantas verdades diferentes, não admira que os portugueses digam que, afinal, é tudo uma mentira.

19.Jul.2001


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