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 EDITORIAL (ARQUIVO)

Morreu Costa Gomes

Mandam as regras do politicamente correcto (e para tal basta ver o que disseram, mesmo sem sentirem, alguns dos «nossos» políticos) que esta é a altura em que se devem esquecer algumas verdades... a bem da Nação (como diria Salazar).

Lamento. Mais uma vez terei de ser politicamente incorrecto.

Continuo a pensar que dizer o que pensamos ser a verdade é o melhor predicado dos Homens de bem. E o que penso ser a verdade não me permite elogiar um homem que, quanto a mim, traiu muitos portugueses e desonrou a Pátria que dele fez um alto dirigente.

Repito aqui o que, a propósito de Costa Gomes, escrevi em 1976. Isto é, que nunca seria amaldiçoado pelos refugiados e retornados de África.

Isto porque todos eles detestam estar em longas filas.

Ao contrário dos políticos socialistas, comunistas, sociais-democratas e democratas-cristãos, a minha memória de Costa Gomes começa anos antes do 25 de Abril de 1974.

Começa em Janeiro de 1971 quando, em Cabinda, o general Costa Gomes, então comandante-chefe das Forças Armadas Portugueses em Angola, realçou a bravura do Exército português no «combate ao terrorismo, em defesa de uma causa justa».

Pouco mais de três anos depois, o mesmo general transformava os terroristas em heróis e passava uma causa justa para o rol das maiores infâmias do Mundo.

É esse homem que hoje é elogiado como se, de facto, o seu passado não contasse, como se a guerra civil que Angola ainda vive nada tivesse a ver com as atitudes de Costa Gomes.

E, para mim, isso não vale.

O Governo falou de «militar distinto» e «cidadão exemplar».

Como militar, importa ainda recordar que em Angola, por exemplo, incentivava sempre os «bravos soldados portugueses» a lutar contra o inimigo que queria destruir o nobre ideal de uma Pátria do Minho a Timor.

E então? O que fez o comandante, Costa Gomes, quando se deu o 25 de Abril?

Abandonou os seus soldados. Muitos deles, tal como muitos civis, nem direito a uma campa tiveram.

Hoje, com a hipocrisia habitual, faz-se crer que a História de Portugal só começou a ser escrita no dia 25 de Abril de 1974. Se assim fosse, não haveria grandes dúvidas: Costa Gomes, Otelo Saraiva de Carvalho, Rosa Coutinho, Víctor Alves, Vítor Crespo, Melo Antunes, Vasco Gonçalves (entre muitos outros) seriam heróis.

Acontece, contudo, que a História (e a memória) desta Nação começa muito, muito antes. E, por isso, falar de «militar distinto» e «cidadão exemplar» é atentar contra essa mesma História.

Para além, é claro, de aviltar a memória de militares e civis que com sangue e com a vida ajudaram a escrever as suas páginas.

31.Jul.2001


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