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 JORNALISMO (ARQUIVO)

AO CORRER DO TECLADO (II)

Ser jornalista está na moda. Pouco importa que o mercado não tenha capacidade para absorver todos aqueles que, por vontade própria ou pela conta bancária do pai, querem experimentar a profissão.

É complicado dizer isto porque, desde logo, grande parte dos professores de jornalismo são jornalistas. Se reconhecessem que o mercado está difícil teriam, creio, de abdicar da acumulação de vencimentos. Também aqui os princípios são muito bonitos mas (até porque os jornalistas ganham mal e porcamente) é preciso pagar ao merceeiro.

Mas, igualmente grave, é (em muitos casos) começar a casa pelo telhado. E é assim que começam muitos dos candidatos (diplomados) a jornalistas. Chegam às Redacções e não tardam a entrevistar o primeiro-ministro. Não sabem fazer uma notícia de um acidente rodoviário mas, com satisfação, podem incluir no curriculum a dita entrevista.

E, por norma, é aqui que entram os assessores dos entrevistados, regra geral ex-jornalistas com a escola toda. E é destes «putos» que eles gostam. É tão fácil «comê-los de cebolada».

Com alguma perspicácia o jovem jornalista nem precisa de se preocupar em preparar a entrevista. Para isso está lá o dito assessor. É claro que o produto final obdecerá a todas as regras jornalísticas. Só é pena que não seja jornalismo mas, quase sempre, uma peça de propaganda.

É igualmente claro que esta forma de comércio jornalístico tem êxito garantido. (Quase) todos ficam a ganhar. O entrevistado porque disse apenas o que queria. O órgão de comunicação social porque não fez ondas e porque, ainda, vai receber alguns anúncios de empresas que ficaram satisfeitas com o trabalho. O jornalista porque viu o seu trabalho elogiado por todos.

Quem perde?

Desde logo o Jornalismo e, com ele, os leitores, ouvintes ou telespectadores que comeram gato por lebre.

Mas será mesmo assim? pergunta-se.

Vejamos um exemplo que me foi dado por um administrador de um hospital.

«Se um administrador receber uma cunha irrecusável (tipo «job for de boys») para admitir no hospital um jornalista, o que fará?

Admite-o, claro! Faz dele um assessor de Imprensa ou um secretário.
Nunca um médico.

E se for um administrador de um jornal a receber a mesma cunha para um médico?

Admite-o, claro! Em pouco tempo faz dele um... jornalista».

15.Jun.2001


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© 2001 Orlando Castro
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