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Guerra em Angola cavou um abismo entre o MPLA e a UNITA Por Carla Pote, da Agência Lusa O presidente da Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé, D. Zacarias Camuenho, realçou o papel da Igreja Católica e da CEAST na aproximação dos angolanos, considerando que a guerra cavou um abismo entre o MPLA e a UNITA. "A Igreja Católica está a desempenhar neste momento um papel muito grande, na medida em que procura aproximar as pessoas, primeiro pelas mentes, para que amanhã o encontro físico também seja possível", afirmou o presidente da CEAST e arcebispo do Lubango, D. Zacarias Camuenho, numa entrevista à Agência Lusa. "Os 25 anos de guerra civil cavaram um abismo muito grande entre o MPLA e a UNITA", comentou o presidente da CEAST, acrescentando que o papel da Igreja tem sido mostrar que não está com nenhuma das facções. "A Igreja está na neutralidade possível para poder ajudar uns e outros a encontrar um caminho para servir Angola e o povo", disse. Depois de citar o trabalho nas dioceses, D. Zacarias citou o Congresso Pro Pace de Agosto de 2000 como uma acção "concreta e de vulto" da Igreja pela paz em Angola, que até hoje serve de referência para muita gente da sociedade civil angolana que até ali "não se pronunciava e tinha medo". "Depois do congresso, (as pessoas) começaram a sentir-se mais libertadas e a mostrar também as suas opções e vontade de colaborar e participar" em favor da paz, disse. Com a recente Campanha contra a Guerra promovida pelo Movimento Pro Pace e pela organização não governamental Open Society "conseguimos reunir as pessoas e dizer não à guerra, o que não é fácil" em Angola, disse. "Falar de paz é fácil mas dizer não à guerra, a esta guerra, não é tão fácil, sobretudo para aqueles que têm armas nas mãos e para aqueles que acabam de as comprar", afirmou. Sobre a polémica pela alegada cobertura "tendenciosa" pela Televisão Pública de Angola (TPA) do lançamento no passado dia 29 em Luanda da Campanha contra a Guerra, D. Zacarias defendeu que "o papel da comunicação social deve ser de imparcialidade e de percepção da sensibilidade e da delicadeza da situação em Angola". "A situação tal como está requer que tenhamos tacto para afrontar certos problemas. E quando a comunicação social se revela mais para um lado do que para o outro, diabolizando até um lado em relação ao outro, quer seja a favor da UNITA ou do MPLA, naturalmente que cria obstáculos à nossa acção e à das pessoas de boa vontade que querem intervir e que devem participar", afirmou. A participação da sociedade civil na reconstrução de Angola foi praticamente a tónica do Congresso Pro Pace, relembrou D. Zacarias Camuenho, realçando que "todo o cidadão tem de participar naquilo que é o bem do seu país e cada um dos angolanos está nesta luta". Quanto à acusação sobre a politização da emissora católica Rádio Ecclesia, feita por alguns sectores do poder político, o prelado considera que não é verdadeira, pois que tem defendido uma linha editorial de imparcialidade e neutralidade para servir a todos. "A Rádio Ecclesia é da Conferência Episcopal de Angola e está aberta a todos, recebe todos", sublinhou. Pelo facto de "irem lá pessoas e falarem por vezes contra o Governo ou contra coisas que estão mal no país, não se pode dizer que a emissora está a ser politizada". Citou ainda o lançamento da Campanha contra a Guerra, em que participaram cerca de 300 pessoas e para que foram convidados membros do Governo e do MPLA, nomeadamente o seu secretário-geral, mas a que ninguém apareceu e "apenas mandaram a televisão". "Se as pessoas não aparecem, o que é que querem", questionou. "Não podemos ir até aos seus gabinetes, mas convidámo-los", sublinhou D. Zacarias. D. Zacarias Camuenho afirmou que os bispo angolanos já comunicaram ao presidente angolano, José Eduardo dos Santos, a sua disponibilidade para uma conversa entre os próximos dias 7 e 15 de Novembro em Luanda, depois de um primeiro encontro ter sido adiado a pedido do chefe de Estado angolano. Sobre se considera as sanções decretadas pelas Nações Unidas um impedimento para os contactos entre as partes em conflito, D. Zacarias afirmou que a própria UNITA o tem afirmado, além de que não estão a produzir efeito. A título de exemplo, citou o ataque da UNITA ao comboio em Zenza do Itombe, na província do Cuanza Norte, que causou mais de 200 mortes em princípio de Agosto passado. "Muitas vezes ficamos na ilusão de que as sanções à UNITA dão efeito. Nós sabemos que as sanções sozinhas não produzem efeito" e quem acaba por mais sofrer é o povo, sublinhou. Afirmou-se a favor de "pacotes mais políticos", para que as pessoas possam aproximar-se, primeiro nas mentes e depois numa aproximação mais física, no linha do trabalho desenvolvido pela igreja. D. Zacarias é com uma dupla israelo-palestiniana e uma tunisina um dos finalistas nomeados para o prémio Sakharov de direitos humanos do Parlamento Europeu, a atribuir na próxima semana. O prelado disse à Lusa que no princípio pensou que se tratava de uma brincadeira e agora sente-se satisfeito pelo "reconhecimento do trabalho de uma igreja". "Eu aceito, porque não se trata de mim mas trata-se de um trabalho de uma igreja, que desde sempre lutou pela liberdade das pessoas e pela paz em Angola e pelo bem social do seu povo", afirmou. "Se o prémio vier é bem vindo, se não vier também para onde for é bem entregue", observou sorrindo, acrescentando que no contexto actual a dupla israelo/palestiniana será provavelmente "a favorita". Considera que a nomeação reconhece que não se pode esquecer a guerra de Angola, que "dura há tanto tempo e já fez muitas vítimas, que por vezes as notícias oficiais não revelam. Mas a igreja está lá e vai dizendo que há mortos e que há toda uma situação que é contra a humanidade e do adiamento de um país". "Penso que esta nomeação dos eurodeputados quis significar isto, que a igreja não se tem calado e que tem cumprido o seu dever", disse. "Conhecer sempre um bocadinho mais do que é Angola e promover campanhas contra os fabricantes, vendedores e comerciantes de armas" são acções da comunidade internacional que, segundo D. Zacarias Camuenho, podem ajudar os angolanos na caminhada para a paz. "Mas estamos optimistas e temos a esperança de que, com a ajuda internacional, dos amigos, sobretudo com a ajuda de Portugal, vamos sair deste impasse e também desta miséria", sublinhou. A paz não está para breve, "só com um milagre", comentou D. Zacarias Camuenho. "Mas é isso que virá", concluiu, sem dúvidas. 15.Out.2001 |
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