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Portugueses voltaram a ser assassinados em Angola, desta vez na província do Bengo. Esta é, pelo menos para já, a única certeza. Tudo o resto tem contornos pouco claros, apesar da tentação de alguns em serem detentores da verdade absoluta. O Governo de Luanda não tem dúvidas de que a culpa é da UNITA. E não tem dúvidas porque as balas dos seus exércitos não matam civis. Portanto... Portugal tem alguma dúvidas mas, é claro, inclina-se (muito se inclina este país!) para incriminar Jonas Savimbi, até porque isso é fácil, é barato e dá milhões. Embora comedido, o embaixador de Portugal em Luanda, Fernando Neves, sempre foi afirmando que há "indícios" de que a UNITA estará por detrás do "massacre pusilânime e totalmente gratuito" que vitimou os portugueses. Mais cuidadoso foi o cônsul-geral de Portugal em Angola. Admitiu que "não se sabe" quem foram os autores do ataque, salientando contudo que "a forma de actuação e o tipo de armas utilizadas apontam para bandos armados indisciplinados". Por sua vez a UNITA negou a responsabilidade no assassínio e e entende que os autores do "hediondo massacre" devem ser procurados "entre os bandos errantes da Defesa Civil (as milícias populares do MPLA), que têm semeado o terror em Angola e/ou entre os elementos da Segurança de Estado". Neste, como noutros, casos a opinião pública «come» o que lhe dão sem se dar ao trabalho de pensar se a informação é consistente, se os argumentos são válidos, se os factos o são de facto, se estão (ou não) a vender-lhes gato por lebre. Certo nisto tudo é que os portugueses foram assassinados. Mas, ao menos, procuremos analisar a informação conhecida de modo a que, no mínimo, não se volte a confundir a estrada da Beira com a beira da estrada. Importa, desde logo, saber quem mais benefícios tira deste crime. É uma regra basilar. Na minha opinião, o único beneficiado é o Governo de Luanda. Depois de (tentar) atribuir a Jonas Savimbi o estatuto de Osama bin Laden e à UNITA o estatuto de Al-Qaida, só lhe faltava um massacre imputável aos homens do Galo Negro. E se melhor o pensaram, melhor o fizeram. Só lhes faltou (o que ainda não está fora de questão) capturarem alguns dos «autores» que, é claro, vão dizer que são da UNITA e se calhar até dirão que o ataque foi comandado, do outro lado da picada, pelo próprio Jonas Savimbi. Segundo a UNITA, o MPLA tem gente «sempre disponível para utilizar quaisquer meios para atingir um único fim, o de tentar conseguir na comunidade internacional aquilo que os angolanos não lhe concedem, que é a eternização da sua ditadura à custa da diabolização da UNITA». E tem mesmo. De facto, as características deste crime são idênticas às do massacre do Cabo Ledo, em 1992, onde sete cidadãos portugueses, incluindo crianças, foram barbaramente assassinados. E quem na altura foi acusado? É claro, a UNITA. No entanto, três anos depois, os autores do crime revelaram que a encomenda foi feita por elementos das forças armadas do MPLA a mando da Segurança de Estado, com o único fim de denegrir a UNITA. Ao contrário do que acontece com as tropas de Luanda, eu sei que as balas da UNITA não distinguem soldados de civis, brancos de pretos, portugueses de angolanos. No entanto, continuo a acreditar que, mais uma vez, aqui há gato. Mas, também mais uma vez, se verificará que o gato deixou o rabo de fora. Acresce, por último, que José Eduardo dos Santos (o democrata que gere os destinos de um estado de direito e de plenas liberdades cívicas) voltou a enganar-se. Num dia diz que as forças militares da UNITA são residuais e, logo a seguir, afirma que elas atacam a poucos quilómetros de Luanda. Pena é que Luanda continue a achar que os portugueses é que devem ser os actores das suas macabras encenações. Pena é que Portugal alinhe com toda esta palhaçada a coberto, eventualmente, de uma coisa a que chamam relações de Estado para Estado. É que se aquilo é um Estado... Bin Laden merece o Prémio Nobel da Paz.
24.Nov.01
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