|
A possível candidatura de Xanana Gusmão à Presidência da República em Timor-Leste voltou a causar polémica, com o líder histórico timorense a dirigir críticas a José Ramos Horta e à Fretilin. A polémica surgiu depois de José Ramos Horta ter servido de mediador entre a Fretilin e Xanana Gusmão, no âmbito de uma proposta do maior partido timorense para a formação de uma comissão multipartidária que nomeasse o líder nacional como candidato. Em declarações ao jornal timorense «Suara Timor Lorosae», Xanana Gusmão acusou a Fretilin de "inconsistências" na sua posição sobre o tema das presidenciais, considerando que José Ramos Horta continua a apoiar este partido. "Já há muito tempo, mesmo antes das eleições, que notei que Horta também é da Fretilin. Só um dedinho é que saiu mas todo o corpo está dentro", disse Xanana Gusmão. Na polémica entrevista, Xanana desmentiu garantias dadas por si próprio à Agência Lusa em Janeiro, quando afirmou não ter sido contactado quanto à formação da comissão nacional conjunta. Admitiu também ter sido confrontado por José Ramos Horta quando desmentiu o contacto inicial sobre a proposta da Fretilin, num encontro que fontes timorenses garantem ter sido "bastante quente". "Afinal como é, chefe? Falámos ou não falámos?", terá dito Ramos Horta, citado por Xanana Gusmão. Xanana Gusmão confirmou a tensão do encontro referindo ter apelado directamente a Ramos Horta para esquecer a ideia. "Disse-lhe que nós os dois trabalhamos juntos há muito tempo, mas por vezes não nos ouvimos um ao outro", disse Xanana Gusmão. Para Xanana Gusmão, a proposta da Fretilin é "inconsistente" com as suas posições actuais, parecendo "anti-democrática". "A Fretilin disse que só me dá apoio se me candidatar como independente, mas agora o Ramos Horta aparece a dizer que a Fretilin assim já apoia", afirmou. "Não gosto quando hoje dizem uma coisa e amanhã outra. Não dou valor e não aprecio este tipo de atitude", referiu. Para Xanana Gusmão, se houver uma nomeação sua por parte "do Governo, do ministro dos Negócios Estrangeiros e do ministro-chefe, não haverá "nenhum outro palerma" para avançar como candidato. Apesar do assunto já vir a ser debatido em privado há algum tempo, a primeira confirmação pública da proposta comissão conjunta foi dada à Agência Lusa no passado dia 21 de Janeiro pelo vice-presidente da Fretilin, Mari Alkatiri. Para o dirigente, a proposta centrava-se na criação de uma estrutura nacional, possivelmente presidida pelo próprio Ramos Horta, que reunisse representantes partidários e não-partidários e da qual a Fretilin faria parte. "A minha proposta não mereceu resposta positiva, pelo menos até agora, por parte do Xanana. Espero que ainda esteja a encarar as suas hipóteses. Mas a escolha é dele", disse na altura. Confrontado pela Agência Lusa com as declarações de Mari Alkatiri, o próprio Xanana Gusmão recusou então a comentar a questão, afirmando que não tinha sido contactado sobre o assunto, não tendo, por isso, tomado qualquer decisão. Na entrevista, Xanana Gusmão explicou que enquanto estava em Portugal, na sua última visita, recebeu um e-mail de José Ramos Horta no qual este apresentava a proposta de Mari Alkatiri. Reafirmou que se manterá "coerente com os partidos pequenos" de Timor-Leste, referindo que já durante a campanha para as eleições de 30 de Agosto último as forças agora na oposição o tinham apontado publicamente como candidato presidencial. Ainda assim volta a deixar dúvidas sobre a sua candidatura, afirmando que ainda não decidiu e que continua a aguardar a aprovação do texto da constituição. "Ainda estou à espera de ver como a constituição trata esta questão (do presidente), e de ver como se socializa esta questão", disse. A Fretilin já disse publicamente que só apoiaria a candidatura de Xanana Gusmão como um independente e não como um candidato nomeado por outros partidos. Mari Alkatiri disse à Lusa que a Fretilin não tenciona apresentar um candidato às primeiras eleições presidenciais de Timor-Leste, uma decisão que deverá ser formalizada durante uma reunião do Comité Central do partido. "O Comité vai debater isso mas tenho vindo a afirmar que dificilmente a Fretilin poderá apoiar um candidato de outros partidos", considerou, recordando que a própria história política timorense obriga a esta posição. "Se deixamos que Xanana Gusmão deixasse a Fretilin para ser líder nacional, dificilmente podemos dizer que agora temos que aceitar que ele seja líder ou candidato de outros partidos", referiu Mari Alkatiri. O calendário eleitoral do voto de 14 de Abril arranca já na segunda-feira, altura em que terá início o processo de registo dos partidos políticos e da apresentação de candidatos. Qualquer dos partidos políticos registados para as eleições da Assembleia Constituinte, em 30 Agosto último, ou outras forças políticas que se registem até ao dia 23 de Fevereiro, poderá apresentar candidatos para o voto, sendo ainda possível que independentes - com 5000 assinaturas de apoio - se apresentem ao sufrágio. A acreditação dos observadores eleitorais começa a 18 de Fevereiro, devendo a lista final de candidatos ser publicada no dia 4 de Março, 11 dias antes do início da campanha eleitoral que terminará 24 horas antes da votação. A contagem dos votos deverá estar concluídas em três dias depois do sufrágio, devendo os resultados ser certificados pelos comissários eleitorais até 21 de Abril, sensivelmente um mês antes da data formal de independência de Timor-Leste, marcada para 20 de Maio.
01.Fev.02
|