|
Por favor, questionem tudo o que aqui possam ler... |
Juizes, deputados, jornalistas e empregadas de limpeza A Associação Sindical dos Juizes Portugueses acusou a Alta Autoridade para a Comunicação Social de falta de competência para criticar decisões judiciais e "alguns jornalistas" de "despóticas tentativas" de exercício de um poder absoluto de informar. A coisa está brava. Resta, contudo, a certeza de que é mais a parra do que a uva. Desde logo porque, ao contrário do que seria de esperar, os «macacos» não estão nos galhos certos. E quando assim acontece (e acontece muitas vezes), tanto jornalistas como juizes tendem a sobrevalorizar as ideias de poder em detrimento do poder das ideias. A convivência não tem sido fácil. O nosso Estado de Direito... democrático ainda é uma criança e, como tal, ainda há muitos vícios, deformações e preconceitos herdados que a muitos dá jeito conservar. É claro que o «quero, posso e mando» não serve nenhuma das partes. Não serve mas é praticado, não serve mas é estimulado. Não serve mas vai servindo. Tudo começou, neste caso, no passado dia 10 de Janeiro, quando começou no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa, o julgamento do ex-presidente do Benfica, Vale e Azevedo. A juíza encarregada pelo processo, Anabela Gomes Marques, decidiu vedar o acesso do público, Imprensa incluída. Logo aqui reside um (substancial) busílis. O acesso do público é uma coisa, o acesso dos jornalistas é outra. Mas esta mistura é algo que os jornalistas(?) vão aceitando, apesar de ser uma violação dos seus direitos. Quase todos os dias assistimos a conferências de Imprensa (sejam de clubes desportivos ou de partidos) onde a maior parte dos assistentes são tudo menos jornalistas. E se é uma conferência de Imprensa... convenhamos que só lá deveriam estar jornalistas. Mas esta discussão é uma forma de tapar o sol com uma peneira. Mais uma vez os Jornalistas são comidos à grande e à francesa. O problema principal reside no facto de que, quando quiserem, os juizes podem ser jornalistas. Ao contrário, os Jornalistas nunca poderão ser juizes. É tão simples quanto isso. E quem diz juizes, diz médicos, advogados, arquitectos, engenheiros, treinadores de futebol etc.. O jornalismo que vamos tendo, qual reles bordel, aceita tudo e todos. No entanto, reconheça-se, os jornalistas sempre podem ser deputados. Vá lá! Maria Elisa Domingues e Vicente Jorge Silva são os mais recentes exemplos de como, em Portugal, se confunde a obra prima do Mestre com a prima do mestre de obras. Se todos podem ser jornalistas, porque carga de água não podem os jornalistas ser deputados... da Nação? Nem mais. É uma pequena vingança, mas mais vale pequena do que nenhuma. Não? Mesmo com a experiência parlamentar nunca poderão ser juizes, médicos, advogados, arquitectos, engenheiros etc., mas sempre poderão chegar a administradores de empresas públicas. Mas o que é que isso importa? Aliás, a própria Comissão da Carteira Profissional de Jornalista entende que não é incompatível ser jornalista e deputado. O mesmo se passa com o Sindicato dos Jornalistas que viu o seu presidente ser candidato a deputado. Nada importa. Os Jornalistas (até) não têm razão de queixa... São uma classe prestigiada, nobre e cada vez mais dignificada? Não. É claro que não. Qualquer um pode ser jornalista. Utilizando as palavras de um amigo que, de quando em vez, me dá a honra de comentar o que aqui vou escrevendo, «para ter a carteira profissional de Jornalista basta o estágio que varia consoante as habilitações, ser maior de 18 e fazer do jornalismo o seu ganha-pão». Mais. Diz ele que «uma empregada de limpeza que seja amiga do chefe de redacção e de mais dois jornalistas que por sua honra confirmem que é colega de trabalho, passa logo a Jornalista». Embora o exemplo seja extremo, o pressuposto é verdadeiro. Aliás não faltam casos que, perante a apatia dos (verdadeiros) profissionais, confirmam a tese deste meu amigo. «O caso do Quinito é uma boa prova da anarquia em que nos encontramos. Era um futebolista que passou a treinador, e de treinador a jornalista e director de um jornal regional», desabafa o meu amigo, perguntando de imediato o que é necessário para se ser jornalista: «Boa carinha como na NTV? Alguma glória no futebol já é o suficiente? O jornalismo será algum "tapa-buracos" para quando já não se tem mais nada que fazer?» É claro que o Jornalismo não é isso. Mas também é claro que o «nosso» jornalismo é também isso. É e será enquanto os Jornalistas não colocaram a casa em ordem... 25.03.02 |
|
|