Não se é Jornalista sete ou oito horas por dia, a uns tantos contos por mês. É-se Jornalista 24 horas por dia, mesmo estando desempregado


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Então onde param os Jornalistas?

Cada vez mais a máquina comercial que comanda a Imprensa impõe regras que fazem dos jornalistas uma espécie em extinção e que tende a ser substituída pelos autómatos de serviço nas redacções.


Todos (?) nos recordamos que quando um cão morde um homem, isso não é notícia. Notícia será (seria) se o homem mordesse o cão. Em alguns jornais nada disto é verdade.



Só pede para sair quem, afinal, quer ficar.



O comodismo é a esterilidade da criação - urge reagir.



O possível faz-se sem esforço.



Entre a ignorância e a sabedoria só vai o tempo de chegar a resposta.



Pensa que é bom Jornalista só porque assina textos? Então poderá pensar também que é um bom pintor só porque conhece as cores do arco-íris.



Enquanto uns perguntam o que não sabem e só são ignorantes durante o tempo que leva a chegar a resposta, outros preferem ficar ignorantes toda a vida. Os Jornalistas não escapam à regra.



No jornalismo é cada vez mais comum confundir a crítica com a traição, o contraditório com a desobediência.



Como Jornalista não preciso de ninguém que esteja sempre de acordo comigo - para isso basta a minha sombra.












Por favor, questionem tudo o que aqui possam ler...

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 JORNALISMO

Juizes, deputados, jornalistas e empregadas de limpeza

A Associação Sindical dos Juizes Portugueses acusou a Alta Autoridade para a Comunicação Social de falta de competência para criticar decisões judiciais e "alguns jornalistas" de "despóticas tentativas" de exercício de um poder absoluto de informar.

A coisa está brava. Resta, contudo, a certeza de que é mais a parra do que a uva. Desde logo porque, ao contrário do que seria de esperar, os «macacos» não estão nos galhos certos. E quando assim acontece (e acontece muitas vezes), tanto jornalistas como juizes tendem a sobrevalorizar as ideias de poder em detrimento do poder das ideias.

A convivência não tem sido fácil. O nosso Estado de Direito... democrático ainda é uma criança e, como tal, ainda há muitos vícios, deformações e preconceitos herdados que a muitos dá jeito conservar. É claro que o «quero, posso e mando» não serve nenhuma das partes. Não serve mas é praticado, não serve mas é estimulado. Não serve mas vai servindo.

Tudo começou, neste caso, no passado dia 10 de Janeiro, quando começou no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa, o julgamento do ex-presidente do Benfica, Vale e Azevedo. A juíza encarregada pelo processo, Anabela Gomes Marques, decidiu vedar o acesso do público, Imprensa incluída.

Logo aqui reside um (substancial) busílis. O acesso do público é uma coisa, o acesso dos jornalistas é outra. Mas esta mistura é algo que os jornalistas(?) vão aceitando, apesar de ser uma violação dos seus direitos. Quase todos os dias assistimos a conferências de Imprensa (sejam de clubes desportivos ou de partidos) onde a maior parte dos assistentes são tudo menos jornalistas. E se é uma conferência de Imprensa... convenhamos que só lá deveriam estar jornalistas.

Mas esta discussão é uma forma de tapar o sol com uma peneira. Mais uma vez os Jornalistas são comidos à grande e à francesa.

O problema principal reside no facto de que, quando quiserem, os juizes podem ser jornalistas. Ao contrário, os Jornalistas nunca poderão ser juizes. É tão simples quanto isso. E quem diz juizes, diz médicos, advogados, arquitectos, engenheiros, treinadores de futebol etc..

O jornalismo que vamos tendo, qual reles bordel, aceita tudo e todos. No entanto, reconheça-se, os jornalistas sempre podem ser deputados. Vá lá! Maria Elisa Domingues e Vicente Jorge Silva são os mais recentes exemplos de como, em Portugal, se confunde a obra prima do Mestre com a prima do mestre de obras.

Se todos podem ser jornalistas, porque carga de água não podem os jornalistas ser deputados... da Nação? Nem mais. É uma pequena vingança, mas mais vale pequena do que nenhuma. Não?

Mesmo com a experiência parlamentar nunca poderão ser juizes, médicos, advogados, arquitectos, engenheiros etc., mas sempre poderão chegar a administradores de empresas públicas.

Mas o que é que isso importa?

Aliás, a própria Comissão da Carteira Profissional de Jornalista entende que não é incompatível ser jornalista e deputado. O mesmo se passa com o Sindicato dos Jornalistas que viu o seu presidente ser candidato a deputado.

Nada importa. Os Jornalistas (até) não têm razão de queixa...

São uma classe prestigiada, nobre e cada vez mais dignificada?

Não. É claro que não. Qualquer um pode ser jornalista. Utilizando as palavras de um amigo que, de quando em vez, me dá a honra de comentar o que aqui vou escrevendo, «para ter a carteira profissional de Jornalista basta o estágio que varia consoante as habilitações, ser maior de 18 e fazer do jornalismo o seu ganha-pão».

Mais. Diz ele que «uma empregada de limpeza que seja amiga do chefe de redacção e de mais dois jornalistas que por sua honra confirmem que é colega de trabalho, passa logo a Jornalista».

Embora o exemplo seja extremo, o pressuposto é verdadeiro. Aliás não faltam casos que, perante a apatia dos (verdadeiros) profissionais, confirmam a tese deste meu amigo.

«O caso do Quinito é uma boa prova da anarquia em que nos encontramos. Era um futebolista que passou a treinador, e de treinador a jornalista e director de um jornal regional», desabafa o meu amigo, perguntando de imediato o que é necessário para se ser jornalista: «Boa carinha como na NTV? Alguma glória no futebol já é o suficiente? O jornalismo será algum "tapa-buracos" para quando já não se tem mais nada que fazer?»

É claro que o Jornalismo não é isso. Mas também é claro que o «nosso» jornalismo é também isso. É e será enquanto os Jornalistas não colocaram a casa em ordem...

25.03.02


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