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 LIVRO ABERTO

Um país de tanga e uma RTP de luxo

Os milhares de funcionários públicos da RTP têm toda a legitimidade para, com unhas e dentes (mesmo que postiços), defender os seus empregos, no meio dos quais estão muitos e bons tachos de ouro.

Os milhares de funcionários privados que querem ser públicos têm toda a legitimidade para, mesmo que desdentados, clamar por um lugar na gamela onde mais importante do que a competência profissional é ter o cartão do partido que parte e reparte e, é claro, fica com a maior parte.

Os milhares de portugueses que pagam os seus impostos (70 por cento dos impostos arrecadados, e que ajudam a sustentar a RTP, são pagos por 4 por cento dos portugueses) têm toda a legitimidade para dizer não a uma televisão que mama à grande e à francesa enquanto, por exemplo, o grosso das reformas dos nossos velhotes são a miséria que se conhece.

Como em tudo, há legitimidade para todos os gostos. No entanto, ou há moralidade ou todos têm de comer. A grande maioria dos funcionários públicos da RTP ganha mais (bem mais) do que eu, apesar de parte dos seus ordenados estar a ser paga também por mim. Ou seja, ganham mais do que eu e eu ainda tenho de os sustentar.

Não me preocupa que os empregados da SIC, da TVI ou de qualquer outra empresa ganhem mais do que eu. Ao contrário do que se passa com a RTP, não é do meu bolso que sai o dinheiro.

Nunca aceitei, não aceito, nunca aceitarei andar de tanga para que os funcionários públicos, neste caso da RTP, andem bem vestidos. Se querem andar assim vestido (e têm esse direito) não o façam à custa dos portugueses que pagam os seus impostos. Trabalhem segundo as regras de uma economia de mercado, enfrentem a concorrência e corram o risco de ficar de barriga vazia, o que aliás não é novidade para muitos portugueses.

Essa de ter o ordenadão sempre certo ao fim do mês, pouco ou nada fazendo para o merecer, é a mais vil forma de ser parasita numa sociedade carenciada como é a nossa.

Por acaso, lembram-se que os 500 portugueses que a empresa alemã Schuh-Union mandou para o olho da rua ajudaram, através dos seus impostos, a pagar os ordenados da RTP e estão agora a tentar dobrar a esquina da miséria?

O que pensarão estes e muitos, muitos outros portugueses de uma empresa que tem actualmente cerca de 190 milhões de contos de défice?

Que moral tem este (os outros já todos sabemos que a não tiveram) Governo para pagar pensões de 30 contos, se permitir a continuação da cratera que é a RTP?

Que pensará a maioria dos pensionistas portugueses de uma empresa pública que tem um défice de 190 milhões de contos mas que, também à sua custa, paga ao director-geral (Emídio Rangel) 8 700 contos por mês, com direito a carro (de dez mil contos), gasolina, telefones etc.? Mais. E que com esse director-geral assinou um contrato que prevê uma indemnização de 250 mil contos líquidos?

E que dizer de José Alberto Carvalho e José Rodrigues dos Santos que ganham três mil contos ilíquidos por mês? Ou de Judite de Sousa (2.600 contos)?

Concordo que Portugal precisa de um canal público de televisão. Podem até ser dois, três ou quatro. Não podem, como agora acontece, é pagar a dez funcionários públicos para fazerem o mesmo que num canal privado é feito apenas por cinco.

12.05.02


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