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O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

E os que lêem o que escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão
Esse comboio de corda
Que se chama o coração

Fernando Pessoa


























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 POESIA

CARTA A UM AMIGO
Por José Carlos Pacheco Alves

Onde moras hoje, AMIGO?

O tempo passa,
Em vão ... espero notícias tuas,
de ANGOLA, da tua Pátria,
Da NOSSA querida Huambo
Que tanto admirávamos e amávamos!

Onde moras hoje, AMIGO?

De ANGOLA, como de toda a ÁFRICA
A televisão e os jornais trazem notícias tristes
O fogo cruzado da artelharia pesada,
O estoiro dos morteiros, das basucas e os migues
Arrasaram mais uma vez campos e cidades

Huambo, Kuito, muitas vilas e aldeias
Permanecem hoje em ruinas
A paisagem está completamente destruída
Resta a desolação e a dor dos que lutando
Corajosamente ainda se mantêm de pé
E dos que resignados, impávidos
Assistem a mais esta aniquilação

Afinal, onde moras AMIGO?

Morreste? Finaste?
E onde estás sepultado?
No quintal da tua casa desmoronada
Onde cuidadosamente cultivávamos legumes,
Verdejavam alfaces, couves e feijoeiros?
E onde pela tardinha, em amena cavaqueira,
Filosofávamos sobre a mística
Da NOSSA prodigiosa TERRA! ...

Pergunto ao vento
Grito!
Grito bem alto, bem alto,
Onde moras AMIGO?
Onde estáaaaaaaaaaas?

Setúbal -1993


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